Será por isso que espero sempre aqui por ti?

Normalmente as pessoas felizes nunca escrevem, vivem. Só as tristes não têm energia para viver e se põem a escrever, sentadas em bancos de jardins, mesmo no Inverno quando ameaça chover e ninguém anda na rua. As pessoas tristes nem têm energia para se levantar.

Adivinha qual delas sou.

de mais uma tua

Stardust.

Diz-me, porque é que as pessoas teimam em misturar as nossas palavras com os cereais que comem ao pequeno-almoço? É que despedaça-me vê-las ali a flutuar no leite, moles e sem consistência, como se fossem simplesmente algo artificial cheio de açúcar e aditivos que vem dentro de caixas de supermercado e até traz brindes coloridos, e que as pessoas comem todos os dias. Despedaça-me a mim e deve despedaçar-te a ti, porque somos feitos do mesmo pó de estrela. Diz-me, porque teimam as pessoas em colar com fita-cola rasgada com os dentes as nossas fotografias dos nossos momentos em papéis enrugados espalhados pelas paredes, apregoando perfumes e relógios e coisas lindas que se oferecem nestas épocas às pessoas de quem se gosta? Se eu não gosto de ti? Eu não gosto de ti: somos feitos do mesmo pó de estrela, que é muito mais do que as pessoas sabem. Então talvez seja por isso que as pessoas teimam em juntar as flores que apanhamos distraídos num jardim, e a colocá-las em jarras cheias de água. Não concebem que as flores podem ser colocadas no meu cabelo ou deixadas na relva para fazermos desenhos com as suas pétalas e escrevermos palavras verdadeiras demais para serem ditas ao pequeno-almoço, com a boca cheia de cereais.

As pessoas não concebem o que somos, mas tentam enfiar-nos à custa no seu mundo formatado de refeições a horas, prendas previsíveis e jarras de flores a enfeitar casas arrumadas. Isto despedaça-me. E deve despedaçar-te também a ti, porque somos feitos do mesmo pó de estrela.

Alicee

Já não como bolachas da mesma maneira.

Antes comprava um pacote e ia comendo duas ou três aqui, duas ou três ali. Duravam semanas, restavam migalhas. Agora não encontras pacotes abertos nos meus armários, à espera que me lembre deles, à espera que o desejo se acenda, ou simplesmente esquecidos porque passaram de validade. Depois de ti, as bolachas ganharam outro sabor. Primeiro achava que encontrava nelas o doce que deixei de encontrar na tua pele. Mas percebi que as devorava tão depressa por medo que elas no dia seguinte já lá não estivessem, por medo que o Monstro das Bolachas as levasse, ou sei lá. Como te levou a ti, de um dia para o outro. E quando fui à tua procura ao armário no outro dia, já lá não estavas. E eu ainda não tinha acabado de te saborear.

S.

#11 letter to a deceased person you wish you could talk to

In a simple world.

Queria guardar a intensidade do calor que me fazes sentir quando me tocas. Queria guardar todo este calor, depois pegar nele, enfiá-lo numa máquina qualquer e convertê-lo em palavras, e seria tão fácil como converter ficheiros Word em Pdf.  E depois de ter essas palavras, pegaria nelas com luvas, esterilizadas em água a ferver para não as arrefecer sequer, e dar-tas-ia instantaneamente, para perceberes sem equívocos o que me fazes.

Amy

Não quero mais os restos de felicidade dos outros.

Se tu és a borboleta linda que todos correm para apanhar quando o piquenique está a meio, aquela que pode fugir e voar e rodopiar com a certeza de que alguém tropeça para a seguir, eu sou o papel sujo e amarrotado que alguém deixou cair distraidamente no chão, entre ervas feias que nem são malmequeres, depois de te ver e antes de te tentar apanhar. E tu não sabes o que é isso, nunca estiveste muito tempo perto destes bichos que emergem da terra e que me segredam à noite todas as classes de palavras que têm subclasses de negação, todos os pretéritos imperfeitos, e todas as frases subordinadas condicionais e impossíveis. Porque tu tens asas e foges quando queres, para onde queres e com quem queres, e a mim deixaram-me aqui sozinha num mundo que eu não pedi pelo Natal. Num mundo onde as condições necessárias à realização do que quero são simplesmente inacessíveis, dadas todas as razões de que te possas lembrar e ainda o facto de eu me encontrar fisicamente no chão, onde nada chega a não ser chuva e migalhas do que outrora foi um bolo delicioso. Um bolo delicioso que eu nunca cheguei a provar. Mas tu sim, claro. Porque tu fazes tudo o que não faço. 

E eu fico aqui, imóvel, a ver.

*Carolina*

#18 letter to the person you wish you could be

That never happens, I guess I'm dreaming again. Let's be more than this.

O tempo não pára, e eu gostava que parasse para poder pensar indefinidamente na estupidez do que (não) estou a fazer. Para te fitar, desviar o olhar e voltar a pousar os meus olhos em ti quando atravessasses a rua antes de entrar. Para mexer o café, remexer, beber e voltar a pedir outro café sem que lá fora o semáforo ficasse verde. Para ter tempo de me surpreender quando te visse chegar, de ouvir a tua voz ao longe pedir
-um galão e uma meia-torrada,
de ficar de novo inebriada com a quantidade de partículas do ar que farias mover e que fariam vibrar o meu manto de invisibilidade. Para ter tempo de me acalmar, de deixar as emoções assentar depois do ciclone que me assalta todas as manhãs. O tempo não pára, e eu gostava que parasse para conseguir estar lúcida perto de ti, para me convencer de que não há nada mais normal do que pedir-te um guardanapo. Porque a minha mesa nunca tem aquele coisinho que armazena guardanapos, como se o universo estivesse em peso a dar-me oportunidades de ser feliz. Oportunidades essas que eu desperdiço, todas todas - e uma a uma também -  porque quando tu chegas e eu te vejo e as partículas do ar se agitam e todo o calor do mundo se concentra em mim, e por isso é que o café arrefece sempre, a minha lucidez desaparece e a única coisa de que me lembro é que não dá para ser mais feliz que isto. Sei que o tempo não pára, mas eu gostava que ele parasse para compreender ainda na tua presença que a felicidade é mais do que ver-te abrir desajeitadamente todas as manhãs um pacote de açúcar. A felicidade pode ser partilhá-lo contigo.

I.W. @

#9 letter to someone you wish you could meet

Over and out.

Mas odeio-te por seres assim um inconsequente distraído. E odeio-me por ser assim uma romântica incurável.

Depois, odeio o mundo por todas as outras razões que faltam.

de mais uma tua

I need your grace to remind me to find my own.

Tentei parar.
-outra vez,
pensas tu. E ris-te em silêncio porque já conheces o resultado. (Ou talvez te rias de alguma peripécia lá na rua, a rua que tu fitas, sempre pela mesma janela, que nunca te fita e que nunca se esquece de beber o café, como eu.) Tentei desviar-me de ti e dos teus ventos solares, da tua luz e do teu calor - que ao princípio me pareciam aquecer o café, até que percebi que o meu café era só mais um café, que arrefecia como todos os outros quando eu me perdia em ti. Mas toda a gente sabe que os cafés são banais, e eu fiz por afastar a tentadora ideia de que preferias, por isso, aquecer-me a mim. Enchi-me então de cargas negativas e repeli ao máximo tudo o que significas, porque eu sou pequenina e invisível e nunca ninguém ouve os meus 
-traga-me outro café que este arrefeceu,
uma, outra e outra vez. Porque eu grito em ultra-sons a necessidade que tenho das coisas. Destruo-me por dentro, arranho a película que me deixa imóvel a escassos de metros de tudo. Desgasto unhas e perco a voz, envolta em cordéis de nada que me atam as mãos e os pés e o coração, e dão nós cegos que nem se deixam ver. E o café ali à minha frente, cada vez mais frio. Por isso tentei parar. Tentei desistir de precisar de ti, tentei esquecer este cenário da qual faço, mesmo assim, parte. Até que me cansei de um mundo onde não te olhava todos os dias. E agora ris-te em silêncio porque a tal senhora apressada tropeçou sozinha no passeio lá fora e nem notas que eu voltei. Nem notas que te dei razão. Nem notas, afinal, que te dei tudo ao entrar aqui outra vez. Mas dei, embora talvez nunca to chegue a dizer. 

I.W. @

Baby, don't be late for tea.

Falta alguma coisa e talvez no fim não culpe ninguém. Mas não me apetece orbitar mais em teu torno. Não me apetece tropeçar por te seguir. Outra vez. Não me apetece querer ser-te tudo, agora. Mas continuo a querê-lo, inevitavelmente. E depois as tuas palavras cheias de tudo ecoam na minha mente quando te alcanço ao longe, embora tu nem olhes na minha direcção. Depois tu não estás aqui comigo, mas as tuas palavras rodeiam-me e envolvem-me e fazem-me acreditar que nunca te esfumaste, que por um momento habitamos fisicamente o mesmo espaço. E eu quase que consigo sentir esta mentira como verdade. Eu quase que te vejo ao longe a deixar-me para trás e quase que acredito que vens para me salvar.

Mas o meu sempre nunca foi o mesmo que o teu.

S.

The stars are bright tonight.

Eu sei que as estrelas brilham; não precisas de mo dizer todas as noites. Já brilhavam antes de ti e irão continuar brilhantes depois. Mas não te vou pedir desculpa por não conseguires abafar o seu brilho com a tua voz, por os teus olhos não me conseguirem encandear a mim. Eu sei que as estrelas brilham, e sei que não brilham por causa de ti. Mas não te posso pedir desculpa por o universo ser assim.

*Carolina*

#13 letter to someone you wish could forgive you

tales of a warm winter (2)

- Queres uma? Estão quentes.
Valia a pena expor as mãos ao ar frio por um pedaço de calor como aquele. Como duas crianças que desembrulhavam um presente, as suas mãos descascavam as castanhas com uma rapidez hábil.
Os passos deles eram demorados. Não como alguém que não sabe onde ir, não como alguém que não quer ir para onde vai. Eram passos de quem tem todo o tempo do mundo, de quem não estaria melhor em mais lado nenhum.

Afinal o Inverno comia-se. Ambos pareceram perceber isso simultaneamente. As luzes ganharam intensidade à medida que o papel de jornal ia ficando vazio. Em simultâneo também, uma sombra alcançou-os, passando depois por eles, acariciando-os e fugindo de seguida. Os seus olhares ergueram-se e, por magia ou não, cruzaram-se. Dois sorrisos anteviam o próximo passo.
- Nunca andei de teleférico à noite.

O rio apresentava-se luminoso. Um grande espelho da noite, que abarcava todas as faces da Lua. Lá em baixo, o corrupio de felicidade instantânea desvanecia-se num rasgar de papel. As luzes não passavam de um clarão que tentava em vão tirar protagonismo à Lua.
Sentada ao seu lado, e como que a sucumbir ao êxtase do dia e à emoção da vida, ela inclinou-se na direcção dele. Era um calor diferente do das luzes ou da música com sininhos. Era um calor diferente do das vozes cruzadas e projectadas na rua. Ele fingia não estar atento, olhando para o infinito através da janela. Mas ela encostou lentamente a sua face no peito dele, fitando também o mundo lá em baixo. E quando ela fechou os olhos e se aninhou no seu casaco, ele permaneceu fisicamente imóvel, com os olhos sempre pousados no céu escuro.

Mas, agora, no silêncio total das paredes de vidro, ele conseguia sentir a respiração dela. Era um Inverno diferente, aquele que ela agora respirava. Não era a estação viva e luminosa, barulhenta e sorridente que se vivia lá em baixo. E continuava a não ser a estação sombria e arrepiante, cinzenta e claustrofóbica que ambos detestavam.
O cabelo dela é que cheirava a Inverno, reconsiderou ele. E as duas luzes brilhavam mais agora do que quando as cascas das castanhas eram distraidamente deixadas cair na avenida cheia de vida. O teleférico não ia parar, a Lua não ia deixar de brilhar, e o Inverno haveria sempre de cheirar assim.

tales of a warm winter (1)

Havia um odor no ar. Cheiro a carvão? Não, cheiro a Inverno, pensou ele. Eram castanhas acabadas de assar, estacionadas no fim da rua. O esguio candeeiro, já débil, iluminava vagamente o vulto encorpado e mascarrado de avental escuro. Não era uma noite sombria. Não era uma noite daquelas em que o silêncio se apoderava dos prédios e em que os passos apressados de alguém assustado enchiam as ruas com o seu eco.

Havia gente na avenida. Havia o Jingle Bells a percorrer as vielas estreitas, a abraçar os solitários. Havia castanhas acabadas de assar, e calor a saltar nas mãos. Havia sorrisos. Havia luzes a aquecer o olhar dos deslumbrados. Era uma noite quente, e o Natal estava aí.
-quero castanhas.
Ela inspirou o Inverno. Os seus ombros encolheram-se, apertou mais o casaco comprido junto ao corpo. O seu olhar espreitou atrás da grande gola branca. Quente, reflectia a luz do candeeiro mais próximo. Brilhava. Sorria.

À volta havia sacos. Não eram pessoas, mas sacos andantes, empilhados, aglomerados, que se atravessavam à frente dos carros em movimento e que gritavam para o outro lado. Eram sacos, cujas cores se misturavam e aqueciam o olhar, que pediam para passar e que diziam boa noite apressadamente. Eles ouviam a parafernália de sons característica das noites quentes, acenavam, abrandavam e esperavam.
Nem ela nem ele eram sacos. Eles eram luz. Duas luzes que brilhavam mais que o débil candeeiro, mais que as sucessivas lâmpadas coloridas que cantavam melodias com sininhos. Mas eram duas luzes no silêncio das suas redomas. Eram duas luzes que só brilhavam uma para a outra, e que não precisavam de cantar sininhos para se fazerem entender. Eram um olhar quente e um sorriso dissimulado.

Focus.

Olho para a paisagem que passa por mim no comboio. Eu podia ser aquela lá em baixo a correr na relva, feliz. Eu podia ter ficado lá, eu sei que seria perfeito. Seria perfeito aos olhos do mundo. Mas eu sei que o que está perto demais engana. E o que eu sinto contigo faz parecer tudo o resto tão, mas tão frio. Por isso me esperam longas horas aqui, enquanto fito pessoas cujos destinos me parecem fúteis. Enquanto as carruagens me embalam e me perguntam
-porque não ficaste lá?
Porque o teu braço pertence à volta do meu corpo.

Porque o meu destino és tu.

Alicee

Palavras.

Irritam-me as tuas palavras monocórdicas mortas e miseráveis, arrastadas pelos cantos de uma casa por onde nunca ninguém quer passar. Irritam-me as tuas palavras escritas a sussurrar e desprovidas de olhos nos quais eu possa olhar - e ter mais um bocadinho de certezas. Irritam-me as tuas palavras esvoaçantes leves e inúteis que o vento fez mudar de rumo antes de me roçarem a pele. (Não que eu quisesse que me roçassem a pele essas tristes tão tristes gotas de nada que escorrem do teu rosto a sorrir, quando me pedes para não te deixar.) Irritam-me as tuas palavras que me pedem para não te deixar, e irritam-me todas as outras não-palavras - porque não são dirigidas a mim - que pedem igualmente, mas aos outros, para ficar. Irritam-me as tuas palavras iguais tão iguais a toda a banalidade do mundo. Irritam-me as tuas palavras fáceis decoráveis e escritas num qualquer banco de jardim com chaves que abrem coisas triviais como casas.

Quero, ao invés, palavras difíceis que enrolam a língua e a elas trazem atrelados sentimentos difíceis demais para repousarem num jardim. Quero-as articuladas devagar, como uma vela que arde à noite e sopra desenhos de fumo sem fim. Irritas-me tu, porque as tuas palavras não são minhas, e nem sequer são assim.

de mais uma tua

#29 letter to the person you want to tell everything to,
but you're too afraid to

They won't name a city after us.

Podia eventualmente acalmar-te dizendo-te que "depois de nós" é uma impossibilidade da natureza, que somos o fim e o princípio de tudo. Que somos plenos e nos estendemos por todo o tempo. Que o tempo não acaba e nós também não. Que sempre existimos e sempre vamos existir, que somos à parte de tudo o que muda neste mundo. Mas não te vou garantir isso. Não te vou garantir um sempre que não está nas minhas - nossas - mãos. Garanto-te sim a energia necessária para um quase sempre que não perdure. Garanto-te sim a inteligência sobrenatural que os deuses terão de ter para arquitecturar planos para nos separar. Garanto-te o estado de destruição do mundo para que deixemos de existir como um só. Garanto-te portanto que não restarão cidades às quais dar nomes. 

Alicee

Título inspirado em "Us" - Regina Spektor,
música de fundo do open your eyes.

Cold-hearted being.

Não acredito que fui a rapariga que te disse tudo o que precisavas de ouvir. Não acredito que fui essa rapariga e que tu nem olhas para mim com um pouco mais de brilho nos olhos.

*Carolina*

#25 letter to the person you know
that is going through the worst of times

It's a sad, sad situation.

Eu deixo que a minha vida seja demasiado influenciada por ti. Sofro as consequências, claro, e até agora não me tenho importado muito. Mas desculpa, fazer as coisas em função de ti tem de acabar, se tu não consegues mudar um bocadinho o teu rumo, por mim. Se fosse outra pessoa, eu não me importava, mas és tu.

Bolas, és tu! 

de mais uma tua

I shouldn't fly so high.

I see all the little perfect things in you. But maybe they just tell me how beautiful and astonishing you are. That doesn't mean I'm in love, 

I guess.

I.W. @

Nunca me chames princesa.

Gosto e não gosto que me faças isto. Sinto-me esplendidamente bem e aterradoramente mal. E tudo isto é demais para mim. É demais para mim. Quando eu sou só uma. Só uma, a sentir isto tudo.

Hoje colapsei.

de mais uma tua

#20 letter to the one that broke your heart the hardest

Desde que te conheci que não tenho medo do escuro.

Eu só gostava de saber
o que é que significa afinal
tu seres diferente de todos.

Amy
Invisible Woman (55) Alice (49) One more (49) Carolina (37) S. (33) Amy (19) Dee Moon (7)