atlante, sussurra-me o teu segredo e eu prometo não contar.

-não queres que seja feliz?
só não te queria perder. 
-mas eu sou feliz contigo.
mas a tua felicidade era feita em série. eras feliz com o mundo inteiro.
-o mundo não me vai separar de ti.
mas também não te irias separar do mundo.
-competir com o mundo é ingrato, sabes.

gostar de ti era ingrato, acabavas de me dizer. querer demais era ingrato. e não havia nada a fazer. o mundo é grande demais para mim. o amor faz-te pensar que o consegues segurar nos ombros, mas depois as lombalgias acabam por chegar. e o mundo vence-te - quase - sempre. o problema é quando não consegues vencê-lo nem te queres juntar a ele. o problema é exactamente esse.

S.

#14 letter to someone you've drifted away from

and I wish I would have seen you in the bakery, but if I'd seen you in the bakery, you probably wouldn't have seen me.

posso fingir que estou a distribuir panfletos sobre a gripe. ou sobre a fome no mundo. ou sobre os teus olhos e a forma como usas sempre dois guardanapos para agarrar as tiras de torrada. isso só interessaria a mim, mas aí já teria desculpa para correr atrás de ti, tocar-te até no ombro, sorrir, dizer
-olá, muito bom dia, como está, passou bem, tem dois minutinhos?
pedir-te dois minutinhos com o descaramento que é sempre desculpado a quem está no marketing. sim, talvez devesse afixar a minha admiração por ti em muros velhos, cartazes todos iguais, uns a seguir aos outros, tu sabes como se costuma fazer. quem sabe, marcar um encontro
-na mesa do canto, perto da janela
e só tu saberias. os outros achariam estranho, os turistas tirariam fotografias, as crianças apontariam e perguntariam aos pais onde ficava aquele país Mesa do Canto (e na verdade aquela mesa é um país aos meus olhos, tem uma bandeira com malmequeres, um hino a nós e a moeda de troca são tiras de torrada - as do meio valem o dobro, claro.) tu talvez parasses durante menos tempo que os restantes, e no entanto teria sido a ti que o cartaz tinha tocado. verias e acelerarias o passo com medo que alguém reparasse que afinal aquilo tinha significado. 
-afinal o amor existe, hey, ouçam todos, afinal o amor existe!
e rir-se-iam de ti. por isso, olharias para um lado e para o outro, como fazem as pessoas que caem em público - e tu caíste, caíste em ti - e continuarias a andar, mas em direcção a mim.

I.W. @

Escrito ao som de "Bakery" - Arctic Monkeys.

àqueles que amam músicas mas não as sabem dançar.

dirás
-que coisa estúpida, as árvores não dançam
antes de me conhecer. depois dirias
-ah, abre a janela e deixa ver que música é.

começaram por dançar de mansinho, como quem abre a pista de dança. depois, cépticos dirão um vento mais forte mas eu chamo-lhe apenas intuição, lançaram-se em coreografias que prometiam sucesso se se fizessem concursos de árvores em horário nobre. coreografias que depressa se descaíram num passo hesitante desalinhado. dirás
-que coisa estúpida, as árvores não andam
antes de me conhecer. depois dirias
-pena é que não corram.

I.W. @

Escrito pela primeira vez num guardanapo,
vendo árvores dançantes na brisa da meia-noite.

cathedrals in my heart.

vou construindo catedrais nos descampados que deixaste para trás, para passar o tempo. não que alguma vez voltes para as percorrer comigo. são só para eu depois lhes tirar fotografias, escrever a data a um canto, talvez entre asteriscos, e pendurar na primeira parede corroída pelo tempo que eu encontrar quando voltar a sair à rua. talvez nessa altura as catedrais estejam na moda, e eu já possa, sem mais nem menos, desfazer-me delas como uma onda derrubou os nossos castelos de areia, por serem tão triviais. desfazer-me delas sem que alguém note.

desfazer-me de ti sem que já eu própria note.

S.

recipes for shattered hearts.

quebra-lhe o coração aos bocadinhos e diz-lhe que a amas ao pôr-do-sol. olha-a nos olhos e conta-lhe histórias sobre homens que chegaram à lua. deixa marinar. desvia depois o olhar num ângulo não inferior a noventa graus, fixa outra pessoa e ri-te ainda mais acerca de como não queres chegar sozinho a marte. entretanto, faz desprender mais um pedaço de coração.

para finalizar, vira-te. pede desculpa.
e depois torna a fazer o mesmo.

de mais uma tua

Escrito ao som de "Bigger Than Us" - White Lies

you set the pace, we'll take it fast or slow.

observar multidões da janela é dos meus passatempos preferidos. acaba por ser como seguir carreiros de formigas, só que dez vezes mais deslumbrante. é que as formigas não vão aos pares, têm um objectivo e só isso interessa. as pessoas passeiam por passear, chegam quando chegarem - e se chegarem. é por isso que podemos dizer se duas pessoas passeiam juntas pela velocidade a que vão. não interessa se têm a mesma trajectória, ou se estão perto uma da outra. basta tomar atenção ao ritmo dos passos acertados, às hesitações conjuntas.

porque quando seguimos com outra pessoa regulamo-nos - invariavelmente -  por ela.

Alicee

gretel of nowadays.

Eu ainda queria ser tudo. Mas perdi malmequeres pelo caminho. Talvez os tenha deixado cair de propósito, já a adivinhar que um dia precisaria de voltar atrás.

S.

coordenadas de afecto.

quando eu era pequenina queria ter um sítio. via nos filmes as pessoas a terem sítios para pensar, ora fosse em cima de um telhado, ou no jardim de uma casa abandonada que ninguém conhecia. e depois havia sempre uma parte do filme em que mostravam esse sítio a alguém importante:
-és a primeira pessoa que trago aqui.
então um dia fui passear perto da minha casa e encontrei uma figueira que me pareceu suficientemente simpática para a fazer minha. voltei logo e chamei a minha melhor amiga:
-anda, vem ver o meu sítio.
e basicamente chegámos lá, ela viu a figueira e talvez tenha imaginado as brincadeiras que eu nunca tive ali, os confins do pensamento que nunca alcancei; talvez tenha ido arranjar um sítio dela quando chegou a casa, só porque sim. e eu sentia-me um pouco uma espécie de fraude, mas não lhe contei a verdade.

agora penso que se calhar o importante não era o sítio, ou o que eu fazia lá, ou o significado que eu lhe atribuí ou não. talvez ao levarmos alguém connosco para dentro de um segredo nosso lhe estejamos a dizer:
-o meu sítio és tu.

Amy

#17 letter to someone from your childhood

come and land your pillow next to me.

não sei porquê tenho a ideia de que as pessoas só são elas próprias mesmo antes de adormecer. talvez porque se preparam para sonhar, e os sonhos não se conseguem fingir.


Amy


Mas ela está lá, só que o teu olhar desilude-se.

Hoje olhei a Cassiopeia tempo demais, num caminho que me afastava de ti. Reparei que uma das estrelas só se vê se olharmos para as outras, e não para ela directamente. Só me notas na relatividade do mundo; se nada existisse, eu também não precisaria de existir. E assim é a estrela: enquanto olhas as outras quatro, vê-la ali ao lado, embora fosca, e sabes que existe uma constelação. Quando orientas o olhar para ela, ela desvanece-se no escuro.

Chamei-lhe "a pressão de ser."

de mais uma tua

Dá-me uma paleta and i'll be your Rembrandt.

Dizem-te para seres feliz. Dão-te umas tralhas para as mãos, largam-te no meio da rua e
-agora desenrasca-te.

Também me aconteceu a mim. Primeiro fica-se a achar que não
-deves estar é maluco,
uma pessoa não pode ser feliz assim. Onde está o meu coração de porcelana pintado à mão, as minhas caixas de fotografias com emoções conservadas em âmbar, os meus sapatos de verniz com laços côr-de-rosa a condizer? Barafustei o mais que pude até que percebi que ali no meio da rua não podia ficar. E nos passeios sempre há mais gente....
-não gosto de pessoas cinzento-alcatrão,
disse-me alguém entre duas nuvens de algodão doce, quando a felicidade se vendia em pacotes nas feiras de carrosséis.
-somos camaleões cor-de-pele; a felicidade tem a cor que conseguires inventar.

Alicee

Sonhar como se vivesses para sempre. Viver como se morresses amanhã.

Depressa, queria ir para casa. Descalçar-se, ser feliz. A cinderela partiu o sapato mas não tem lacaios que a levem escondida, e não é meia-noite nem passa uma brisa ligeira: o sol bate na cara e queima a pele, e é hora de ponta nas ruas do mundo. Não deixou rasto, ninguém a segue. Só a segurança ficou lá atrás, onde antes morava o sapato inteiro; bem dizem que a nossa alma mora nos pés.

O sol brilha, mas por azar as abóboras não crescem nas árvores.

*Carolina*

Escrito ao som de "A Dustland Fairytale" - The Killers

i think we're better than this.

és aqueles sapatos que eu quero sempre usar em dias de sol, mas que me marcam os pés quando os uso. é que condizem com algodão doce à beira-mar, mas nunca com os meus pés descalços. olho-os só demoradamente, antes de sair de casa. talvez um dia o mundo ceda.

I.W. @

#22 letter to someone you want to give a second chance to

Love Ikea-like.

Depois de todas as tardes perdidas de pernas à chinês a tentar montar móveis e outras mobílias várias, depois dos parafusos mal aparafusados, de voltar a fazer tudo outra vez, e outra vez, e outra vez, e nunca resultar... depois de desistir, depois de usar como mesa-de-cabeceira o empilhado de livros que me ofereceram pelo Natal, depois de voltar a tentar, de achar que desta-é-de-vez, de respirar fundo, de arregaçar as mangas, de atar o cabelo, de atirar manuais de instruções ao chão, porque-não-há-manuais-de-instruções-para-o-amor, eis que.

Eis que apareces tu a dizer-me que amar é fácil. E mais: que pode ser, mesmo assim, perfeito. Fácil e perfeito: que contradição, senhores. E ao inicío fica-se a olhar de lado,
-o que é que estás para aí a dizer?
e não se acredita, mas todos me dizem continuamente que sim, que agora há amores que quase se constroem sozinhos, trazem as peças todas contadas e ficam bem em qualquer lado. E eu acredito, não porque acredito-mesmo, mas mais porque quero acreditar. Porque se houver uma hipótese de perfeição fácil neste mundo, eu quero pelo menos tentar acreditar nela e ver no que dá.

Mas e quando se desmonta um amor destes? Às vezes só para o mudar de divisão e voltar a construí-lo, de novo; às vezes só porque demoramos a saber o que queremos. E se os parafusos moldaram a madeira de forma perfeitamente irreversível? E se é como pintarmos um quadro mas depois ser já impossível voltar a pôr a tinta intacta na paleta, para um quadro diferente? E se o conto-de-fadas só se escrever uma vez? 

Livros empilhados a um canto, e tardes - perdidas? - a aprender a viver. Prefiro.

*Carolina* 

Quase preferia ser um pastel de nata sem graça, como as outras.

Sabes o que é? Dizeres-me que sou perfeita e dizeres ao mesmo tempo que tens de ir embora?
-não aguentaria destruir-te.

É gostares muito de bolo de chocolate
mas nem o provar porque tens pena de estragar a cobertura.

de mais uma tua

Escrito ao som de "Hair" - Lady Gaga

Hey, this ice cream; it's burning us up!

As mulheres que vês à nossa frente nesta fila de supermercado podiam ser eu. Mas não sonham com felizes-para-sempre, porque estão a comprar caixas de gelado para um. Não é o rótulo que diz, são os olhos delas que deixaram de acreditar que a última rifa pode ter prémio.

Eu também não sonho sempre com felizes-para-sempre. Mas no momento em que as nossas colheres chocarem porque decidimos os dois retirar o mesmo bocado de gelado sem noz, vou acreditar em felizes-para-sempre durante, pelo menos, sete segundos e meio. And that's something I can live with.

Alicee

Escrito ao som de "The Calculation" - Regina Spektor

If I could be your hummingbird.

Eu sou a única pessoa que consegue ver tudo o que és no escuro,
tudo o que podias ser à luz do dia. 

E sou a única que se apaixona por isso.

I.W. @

Cause you can't jump the track, we're like cars on a cable; and life's like an hour glass glued to the table.

Porque eu preciso de ti. E durante todo aquele tempo, eu precisei de ti. O dia em que alguém plantou camélias; o dia em que me ofereceste aquele botão de rosa: foi o dia. Foi o dia em que uma brisa ligeira de fim de tarde fez dançar uma folha de plátano, que caiu aos teus pés. O meu mundo caiu aos teus pés.

Quem adivinharia que não éramos perfeitos aí?

S.

#26 letter to the last person you made a pinky promise to


We could have had it all.

É uma sensação de quase-tudo que arde na língua.

Acaba por ser pior que nada.

S.


Ridicularidades e um chá de canela.

Sabes os corações apertados demais? Quero tanto deixar o meu ir. Quero tanto. Deixar de tentar plantar flores em canteiros por ordem de cor, tamanho e beleza interior. Quero tanto parar de fazer contas. Deixar o dia correr e anoitecer e amanhecer e continuar a ser feliz. Quero tanto esquecer-me do que quero. Pôr de parte os planos feitos quando ainda não sabia nada sobre corações, nem sobre esse combustível que me percorre quando passas. Quero tanto deixar de ser e ao mesmo tempo sê-lo. Arrancar-me aos bocados e construir-me de novo, reorganizar o puzzle interior de emoções. Quero tanto parar o tempo e ao mesmo tempo deixá-lo voar. Entrar numa bola de sabão e não deixar bisturis de incerteza me tocarem sequer. Ser leve como uma bola de sabão e não querer saber de mais nada. Quero tanto ser feliz. Mas ser feliz só porque sim.

I.W. @
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