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as não-perguntas.

acho que foi porque foi tão fácil. e porque nenhum de nós fazia perguntas ao outro. eu não perguntava
- onde estás?
eu dizia
- estou aqui.
Alicee.

quem escreve isto é a alice, porque a alice é feliz.

abre o baú do sótão do teu eu perdido. redescobre as peças vintage do teu ser. quem eras antes das catástrofes do mundo, quem eras antes do modernismo insensível te atingir. volta a calçar aqueles sapatos velhos confortáveis. volta a vestir as camisolas de inverno que te aquecem o coração. os teus pés lentamente tornam-se novos outra vez, voltam a sentir a relva fria ao mais pequeno toque. deixa-te deslumbrar outra vez. deixa de te importar com a chuva que cai, ou não cai, não questiones a chuva. fica até ser de madrugada. não afastes a corrente eléctrica que te quer guiar. fecha os olhos e sê.

Alicee.

escrito ao som de "No Ulterior Motives" - Walk Off the Earth

our love is a bestseller.

a minha história não és só tu. 
mas sem ti ninguém comprava o livro.

Alicee

my heart is your summer house.

há uma praia com conchas que às vezes guardam segredos teus. e mesmo de frente para ela estou eu. tenho escadas de madeira lascada pela água quando outrora caíram tempestades, e é aí que nos sentamos quando ao dia apetece limonada com groselha. tenho um alpendre que te protege quando o mundo queima demais. tenho um sofá cor-de-pele onde adormeces de madrugada. 
o meu chão só conhece os teus pés descalços, a minha rede de baloiço só conhece o teu ritmo. disseste-me
-és o meu verão todo o ano,
e na altura eu só corei. estavam quarenta graus de repente.

Alicee

easy peasy love stroke hard on us.

é que eu sempre vi a vida difícil quando não estavas. às vezes era porque me esquecia das chaves em casa, outras vezes porque já não havia cereais suficientes no pacote para encher uma taça. eu sempre vi a vida difícil quando não estavas e isso fazia-me uma confusão estranha. porque achava que de outra forma tu estarias lá para me abrir a porta, ou para ir rapidamente à mercearia do fundo da rua, ou para me aquecer os pés, ou para me ajeitar o cabelo. mas a vida era difícil quando não estavas porque a vida não é mais fácil quando estás, mas simplesmente aí ela já não me faz confusão de todo.

Alicee

às vezes a felicidade é assim.

hoje foi uma tarde tão perfeita que não me apetece contar a ninguém.

Alicee

a minha alma sente vontade de descalçar os sapatos e deitar-se em ti.

quando encostei a minha mão à tua, pareceu que senti cada órgão meu a encaixar-se melhor e a relaxar, a adormecer, como se dissesse
-ahhh, cheguei a casa.
e quando encostei a minha mão à tua, tu imediatamente ajustaste os teus dedos como se não tivesses sido apanhado de surpresa, como se já estivesses ali à espera que eu o fizesse. porque quando eu encostei a minha mão à tua, a tua envolveu a minha num ápice e aqueceste-me os pés. por um momento pareceu-me ouvir a tua alma a dizer
-que bom, já chegaste.

Alicee.

Escrito ao som de "Never Gonna Leave This Bed" - Maroon 5

they build buildinds so tall these days.

é que não me consigo contentar com nada em que não estejas.

Alicee

you set the pace, we'll take it fast or slow.

observar multidões da janela é dos meus passatempos preferidos. acaba por ser como seguir carreiros de formigas, só que dez vezes mais deslumbrante. é que as formigas não vão aos pares, têm um objectivo e só isso interessa. as pessoas passeiam por passear, chegam quando chegarem - e se chegarem. é por isso que podemos dizer se duas pessoas passeiam juntas pela velocidade a que vão. não interessa se têm a mesma trajectória, ou se estão perto uma da outra. basta tomar atenção ao ritmo dos passos acertados, às hesitações conjuntas.

porque quando seguimos com outra pessoa regulamo-nos - invariavelmente -  por ela.

Alicee

Dá-me uma paleta and i'll be your Rembrandt.

Dizem-te para seres feliz. Dão-te umas tralhas para as mãos, largam-te no meio da rua e
-agora desenrasca-te.

Também me aconteceu a mim. Primeiro fica-se a achar que não
-deves estar é maluco,
uma pessoa não pode ser feliz assim. Onde está o meu coração de porcelana pintado à mão, as minhas caixas de fotografias com emoções conservadas em âmbar, os meus sapatos de verniz com laços côr-de-rosa a condizer? Barafustei o mais que pude até que percebi que ali no meio da rua não podia ficar. E nos passeios sempre há mais gente....
-não gosto de pessoas cinzento-alcatrão,
disse-me alguém entre duas nuvens de algodão doce, quando a felicidade se vendia em pacotes nas feiras de carrosséis.
-somos camaleões cor-de-pele; a felicidade tem a cor que conseguires inventar.

Alicee

Hey, this ice cream; it's burning us up!

As mulheres que vês à nossa frente nesta fila de supermercado podiam ser eu. Mas não sonham com felizes-para-sempre, porque estão a comprar caixas de gelado para um. Não é o rótulo que diz, são os olhos delas que deixaram de acreditar que a última rifa pode ter prémio.

Eu também não sonho sempre com felizes-para-sempre. Mas no momento em que as nossas colheres chocarem porque decidimos os dois retirar o mesmo bocado de gelado sem noz, vou acreditar em felizes-para-sempre durante, pelo menos, sete segundos e meio. And that's something I can live with.

Alicee

Escrito ao som de "The Calculation" - Regina Spektor

And I'm not going to look at you in the shoe. The eyes, find the eyes.

Desistir por medo de perder nunca foi uma boa solução para o amor.

Alicee

we're one, even not being the same.

just see how our hands align perfectly, and how we move gently to the sound of each other. mirrors are us in another dimension of being ourselves. you are me, in another parallel universe. no doubt of that.

Alicee

#30 letter to your reflection in the mirror

Give me a stage, and I'll be your rock and roll queen.

Agora centro-me sempre mais em ti, quase mais do que em mim. Porque tu chegaste e revolveste o meu mundo e inverteste as minhas prioridades. E tiraste-me as palavras, mas deixaste-me com o teu calor, com a tua intensidade. Com algo que não sei explicar e que me percorre quando me tocas. Porque és mais do que imaginas ser. E a certeza de que somos um bocado perfeitos e de que não vamos desaparecer aloja-se cada vez mais em nós. Habitamos telepaticamente o mesmo espaço;

we're one in a different way, now.

Alicee

#23 letter to the last person you kissed


Stardust.

Diz-me, porque é que as pessoas teimam em misturar as nossas palavras com os cereais que comem ao pequeno-almoço? É que despedaça-me vê-las ali a flutuar no leite, moles e sem consistência, como se fossem simplesmente algo artificial cheio de açúcar e aditivos que vem dentro de caixas de supermercado e até traz brindes coloridos, e que as pessoas comem todos os dias. Despedaça-me a mim e deve despedaçar-te a ti, porque somos feitos do mesmo pó de estrela. Diz-me, porque teimam as pessoas em colar com fita-cola rasgada com os dentes as nossas fotografias dos nossos momentos em papéis enrugados espalhados pelas paredes, apregoando perfumes e relógios e coisas lindas que se oferecem nestas épocas às pessoas de quem se gosta? Se eu não gosto de ti? Eu não gosto de ti: somos feitos do mesmo pó de estrela, que é muito mais do que as pessoas sabem. Então talvez seja por isso que as pessoas teimam em juntar as flores que apanhamos distraídos num jardim, e a colocá-las em jarras cheias de água. Não concebem que as flores podem ser colocadas no meu cabelo ou deixadas na relva para fazermos desenhos com as suas pétalas e escrevermos palavras verdadeiras demais para serem ditas ao pequeno-almoço, com a boca cheia de cereais.

As pessoas não concebem o que somos, mas tentam enfiar-nos à custa no seu mundo formatado de refeições a horas, prendas previsíveis e jarras de flores a enfeitar casas arrumadas. Isto despedaça-me. E deve despedaçar-te também a ti, porque somos feitos do mesmo pó de estrela.

Alicee

Focus.

Olho para a paisagem que passa por mim no comboio. Eu podia ser aquela lá em baixo a correr na relva, feliz. Eu podia ter ficado lá, eu sei que seria perfeito. Seria perfeito aos olhos do mundo. Mas eu sei que o que está perto demais engana. E o que eu sinto contigo faz parecer tudo o resto tão, mas tão frio. Por isso me esperam longas horas aqui, enquanto fito pessoas cujos destinos me parecem fúteis. Enquanto as carruagens me embalam e me perguntam
-porque não ficaste lá?
Porque o teu braço pertence à volta do meu corpo.

Porque o meu destino és tu.

Alicee

They won't name a city after us.

Podia eventualmente acalmar-te dizendo-te que "depois de nós" é uma impossibilidade da natureza, que somos o fim e o princípio de tudo. Que somos plenos e nos estendemos por todo o tempo. Que o tempo não acaba e nós também não. Que sempre existimos e sempre vamos existir, que somos à parte de tudo o que muda neste mundo. Mas não te vou garantir isso. Não te vou garantir um sempre que não está nas minhas - nossas - mãos. Garanto-te sim a energia necessária para um quase sempre que não perdure. Garanto-te sim a inteligência sobrenatural que os deuses terão de ter para arquitecturar planos para nos separar. Garanto-te o estado de destruição do mundo para que deixemos de existir como um só. Garanto-te portanto que não restarão cidades às quais dar nomes. 

Alicee

Título inspirado em "Us" - Regina Spektor,
música de fundo do open your eyes.

O amor constipa.

Escrevi
-o amor constipa
como título desta coisa. Mas o amor não é aquela brisa matreira ao fim de tarde que vem não se sabe de onde e nos arrepia a pele, e nos faz espirrar. Podia ser, mas se vires bem não é, porque esta brisa manda-nos ir para casa. O amor manda-nos ir para a rua. Portanto se vires bem o amor é o calor que mais ninguém sente senão tu. E constipa, porque esse calor que sentes não é um calor à flor da pele. A pele não sabe o que sentes por dentro, só se preocupa com o ar em que todos os outros tocam também. Tu tens calor, e achas na tua inocência que o calor está em todo o lado. Ele parece-te estar em todo o lado. Por isso vestes a tua t-shirt mais gira e os teus chinelos novos e levas os teus óculos de sol para a praia, para estares comigo.
-estamos em janeiro, não se nota?
Eu escolhi o meu vestido mais colorido. Lá fora dizem que chove.
-que tolos, eles, a dizerem que chove; dá para acreditar?
Dizem também que quando chegarmos a casa vamos estar doentes. Dizem que vamos ter febre e não, eles dizem que não vai ser uma consequência do calor a mais. Eles dizem que a pele sentiu a chuva a cair pelos nossos rostos, dizem que os nossos dedos sentiram a areia fria e molhada entre eles, dizem que os pés sentiram as ondas bravas e escuras de um dia de Inverno; e que nós ignorámos isso tudo. Dizem que o calor que sentimos é delírio demente e infundado. Eles dizem que quando chegarmos a casa vamos estar constipados.
-mas o que eles não sabem é que nós nunca vamos chegar a casa.
Que tolos, eles. 

Alicee

Escrito ao som de "Mr. Blue Sky" - Electric Light Orchestra

Breathe your life into me.

Leva-me para o meio da tua tempestade. Pega-me na mão e arrasta-me por entre as árvores revolvidas pelos ventos e os zunidos do tempo ao contrário. Deixa-me pisar a tua terra molhada, até a minha pele perder a cor, ganhar o teu odor. Deixa-me enterrar os pés na tua lama. Deixa-me ficar assim e não páres de chover. Faz cada gota tua percorrer em mim um caminho sinuoso diferente. Semeia em mim ciclones com a tua assinatura a marca d'água, e fá-los acelerar ao ritmo dos trovões. Leva-me a rodopiar. Faz esse teu vento passar através de cada poro meu. Encandeia-me com a tua luz lancinante, incendeia-me e faz-me efervescer. 

Alicee

Contigo, posso olhar para trás.

Sei que tenho sempre o teu olhar de volta, a dizer que sou capaz. Como a tal bailarina da caixinha de música no sótão, que dança quando lhe dão corda. Tu dás-me corda ao pousares o teu olhar em mim.
Alicee
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