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as metamorfoses.

sim, sim. o amor não é uma competição. 
mas quando acaba, é nisso que se torna.

S.

o meu movimento aparente.

tenho medo de coisas que já estão para além do mar. já passaram debaixo de todas as pontes do universo, já se abriram nos sete mares e fizeram redemoinhos cá dentro. e finalmente foram. e o mundo girou sem elas e não pareceu precisar de nada, mas de vez em quando vem uma brisa qualquer, não de norte mas de um outro ponto cardeal que eu não sabia ainda existir em mim. e essa brisa é como uma nascente que brota pela primeira vez. na escola aprendi o ciclo da água mas nunca ninguém me disse como há mais coisas na vida que andam em círculos. ou talvez não andem em círculos. talvez nunca tenha sequer saído do lugar?

S.

there's a still in the street outside your window.

eles lá dizem que sim, mas eu não sei se acredito muito bem. dizem que a meteorologia é como é e não se rege pelo nosso estado de espírito mas hoje apostava tudo em como estas nuvens sabem exactamente a hora a que me disseste
-não não não, nada disso. é só que enquanto tu estás preocupada com os cortinados desta casa o que eu quero é saltar das janelas. só isso.

S.

you go run and tell your friends i'm losing touch.

isso foi triste. eu pisquei os olhos e a borboleta era um holograma, um reflexo virtual de um espelho distorcido pelo tempo, uma constelação de estrelas que afinal estão a milhares de anos-luz de distância umas das outras. afinal foi a refracção ar-água, ou o equilíbrio termodinâmico, ou o efeito de Tyndall. na verdade, na verdade, foi uma parestesia, ou glutamato a mais, ou um glaucoma não-diagnosticado. dizem-me agora ao ouvido que foi o campo magnético da terra. a borboleta era só uma aurora boreal, ou um vento solar um bocado mais bonito. ou terá sido uma sombra, um eclipse, a lua tem a forma de uma borboleta duas vezes por década e eu fui a primeira a descobrir. ou então aqueles padrões estranhos que fazem doer a cabeça, elefantes com quantas pernas, escadas que não dão para lado nenhum. isto é um coelho ou é um pato? fixei uma mancha azul durante trinta segundos, depois olhei para a parede e vi uma borboleta amarela. não, a culpa foi do sono REM, das ondas em dentes de serra.

é que eu pisquei os olhos, a borboleta desapareceu e isso foi triste. porque eu até gostava dela.

S.

e se o amor não passar de uns acordes certos?

please, do not play good music.
-why?
it reminds me of why i fell in love with you a long time ago.

S.

an irreducible love.

Nunca se sabe muito bem a  razão das coisas. A gente acha que sabe, finge que sabe, diz que sabe. Levanta o nariz e fixa um ponto imaterializado, pensa
-eu sei quem sou
um milhão e meio de vezes. A verdade é que se o prato do microondas deixar de rodar não podemos continuar a seleccionar a mesma temperatura.
-Queimaste o jantar outra vez.
-Desculpa.
-O que é que se passa contigo?
Olhamos as coisas como nos olhamos a nós. E não há propriamente uma solução. Dá para simplificar, tornar a incompatibilidade irredutível. Mas em concreto o resultado há-de ser sempre demasiado complicado. Às vezes vale mais ceder. Às vezes vale mais preparar uma salada fria, ou uns ovos mexidos, ou uma mousse de chocolate. 

E se o jantar fosse mousse de chocolate, tu darias um passo atrás.
-O que é que se passa contigo?
-Desculpa.


S.

If I go there will be trouble, if I stay there will be double.

Quando outrora subi estas escadas, subi-as a correr. Subi-as a correr e não olhei para baixo. Não olhei para baixo, porque mas fizeste subir tão depressa que nem deu para lá ficar no topo. No topo eu tocava o sol, mas agora desço degrau a degrau. Desço degrau a degrau com toda a calma do mundo. Porque tu fazes-me descê-las com um vagar doloroso, e agora vejo o medo que não tive a subi-las. A imprudência que não senti a subi-las. As quedas que não dei e que me fizeram subi-las. Contudo eu caio, só que caio dissimuladamente. Se antes eu teria tocado o sol, agora nem o mar vejo atrás das árvores. Desço tão baixo.

Quando outrora subi estas escadas, queria muitas coisas, e qui-las todas depressa. Agora desquero-as a passo de caracol.

S.

Escrito ao som de "Should I stay or should I go?" - The Clash

atlante, sussurra-me o teu segredo e eu prometo não contar.

-não queres que seja feliz?
só não te queria perder. 
-mas eu sou feliz contigo.
mas a tua felicidade era feita em série. eras feliz com o mundo inteiro.
-o mundo não me vai separar de ti.
mas também não te irias separar do mundo.
-competir com o mundo é ingrato, sabes.

gostar de ti era ingrato, acabavas de me dizer. querer demais era ingrato. e não havia nada a fazer. o mundo é grande demais para mim. o amor faz-te pensar que o consegues segurar nos ombros, mas depois as lombalgias acabam por chegar. e o mundo vence-te - quase - sempre. o problema é quando não consegues vencê-lo nem te queres juntar a ele. o problema é exactamente esse.

S.

#14 letter to someone you've drifted away from

cathedrals in my heart.

vou construindo catedrais nos descampados que deixaste para trás, para passar o tempo. não que alguma vez voltes para as percorrer comigo. são só para eu depois lhes tirar fotografias, escrever a data a um canto, talvez entre asteriscos, e pendurar na primeira parede corroída pelo tempo que eu encontrar quando voltar a sair à rua. talvez nessa altura as catedrais estejam na moda, e eu já possa, sem mais nem menos, desfazer-me delas como uma onda derrubou os nossos castelos de areia, por serem tão triviais. desfazer-me delas sem que alguém note.

desfazer-me de ti sem que já eu própria note.

S.

gretel of nowadays.

Eu ainda queria ser tudo. Mas perdi malmequeres pelo caminho. Talvez os tenha deixado cair de propósito, já a adivinhar que um dia precisaria de voltar atrás.

S.

Cause you can't jump the track, we're like cars on a cable; and life's like an hour glass glued to the table.

Porque eu preciso de ti. E durante todo aquele tempo, eu precisei de ti. O dia em que alguém plantou camélias; o dia em que me ofereceste aquele botão de rosa: foi o dia. Foi o dia em que uma brisa ligeira de fim de tarde fez dançar uma folha de plátano, que caiu aos teus pés. O meu mundo caiu aos teus pés.

Quem adivinharia que não éramos perfeitos aí?

S.

#26 letter to the last person you made a pinky promise to


We could have had it all.

É uma sensação de quase-tudo que arde na língua.

Acaba por ser pior que nada.

S.


o problema do fim das coisas.

não sei como agir contigo, se tu agora de repente és igual às outras pessoas.


S.

Escrito ao som de "Sway" - The Kooks

i was always late for love.

or maybe he just didn't wait for me.

S.

You've got stuck in a moment, and you can't get out of it.

Às vezes mudam-nos o caminho e nós ficamos paralisados na onda de choque. A partir daí vivemos tudo como novo, porque tudo nos parece diferente do que era. O deslumbre, a sensação de novidade nunca desaparece inteiramente de nós.

E a sensação de que eras uma novidade nunca desapareceu inteiramente de mim. Mesmo quando me fechaste a porta, mesmo quando me desligaste a luz. Tu eras a mudança que eu queria, e viver permanentemente na mesma mudança nunca me chegou a cansar. Mas acabou por te cansar a ti.

S.

#28 letter to someone that changed your life

Já não como bolachas da mesma maneira.

Antes comprava um pacote e ia comendo duas ou três aqui, duas ou três ali. Duravam semanas, restavam migalhas. Agora não encontras pacotes abertos nos meus armários, à espera que me lembre deles, à espera que o desejo se acenda, ou simplesmente esquecidos porque passaram de validade. Depois de ti, as bolachas ganharam outro sabor. Primeiro achava que encontrava nelas o doce que deixei de encontrar na tua pele. Mas percebi que as devorava tão depressa por medo que elas no dia seguinte já lá não estivessem, por medo que o Monstro das Bolachas as levasse, ou sei lá. Como te levou a ti, de um dia para o outro. E quando fui à tua procura ao armário no outro dia, já lá não estavas. E eu ainda não tinha acabado de te saborear.

S.

#11 letter to a deceased person you wish you could talk to

Baby, don't be late for tea.

Falta alguma coisa e talvez no fim não culpe ninguém. Mas não me apetece orbitar mais em teu torno. Não me apetece tropeçar por te seguir. Outra vez. Não me apetece querer ser-te tudo, agora. Mas continuo a querê-lo, inevitavelmente. E depois as tuas palavras cheias de tudo ecoam na minha mente quando te alcanço ao longe, embora tu nem olhes na minha direcção. Depois tu não estás aqui comigo, mas as tuas palavras rodeiam-me e envolvem-me e fazem-me acreditar que nunca te esfumaste, que por um momento habitamos fisicamente o mesmo espaço. E eu quase que consigo sentir esta mentira como verdade. Eu quase que te vejo ao longe a deixar-me para trás e quase que acredito que vens para me salvar.

Mas o meu sempre nunca foi o mesmo que o teu.

S.

No meu discurso aos estrangeiros sobre a saudade...

Falarei das noites em que já não bates à minha porta, dos nomes que já não me chamas quando te olhava com sono e dos teus dedos frios que já não descansam no meu pescoço. Falarei das janelas que já não abres pela manhã, do sol que já não deixas entrar no meu quarto, dos passos que já não marcam o meu chão. Enfim, falarei dos dias de Março que começaram tristes e da falta que tudo me começou a fazer, subitamente, e já não acaba.

S.

#15 letter to the person you miss the most

Sentia-me frágil, e não forte.

Um dia destes alguém perguntou
-porque é que acabaram?

Encolhi os ombros e disse que não ia chover.

S.

What's missing.

Gostava, entre muitas outras coisas, que tivéssemos tido palavras só nossas. Gostava que em vez de me teres oferecido flores ou jantares me tivesses oferecido uma palavra
-esta é tua, só tua
só minha. Não eram precisas grandes surpresas. Era apenas ter sabido que eu pertencia ao teu dicionário. Ou talvez não, porque agora tudo teria um significado diferente.

S.
Invisible Woman (55) Alice (49) One more (49) Carolina (37) S. (33) Amy (19) Dee Moon (7)