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when in doubt

- se eu te beijar no primeiro encontro vais achar que é descaramento?
se tu não me beijares no primeiro encontro vou achar que é desperdício.

Amy

é que a nossa média não dá bem amor

somos o melhor gelado do mundo no dia mais frio do ano. somos a noite mais quente e estrelada quando tudo o que queremos é dormir.  somos o marisco mais fresco mas alérgicos a ele. somos perfeitos mas ao contrário. não somos nada quando devíamos ser tudo. e - adivinha só - tudo quando não devíamos ser nada.
Amy.

yes, my feet were cold but then you appeared. and stayed.

-vou vê-lo agora.
imediatamente corri para a caixa onde guardo os dvds e saquei o tal filme, para ver também. claro que não te disse. e enquanto o via só pensava que era uma chatice, a primeira meia hora do filme não tinha interesse nenhum, tu ias-te cansar e achar que afinal éramos muito diferentes, porque como é que eu podia adorar aquele filme se a ti te dava vontade de ir antes fazer gelatina? só desejava que acreditasses em mim
-se ela gosta, é porque deve valer a pena,
que ficasses ali no sofá e que esperasses um bocadinho, só um bocadinho mais, para te rires da piada que fiz sobre ele no outro dia para veres que afinal o filme é bom e para perceberes que o teu instinto estava certo. só desejava que me desses uma oportunidade. o filme entretanto foi correndo, a citação que tinha inspirado a minha piada passara, e tu não me tinhas dito nada. bolas, tinhas desistido antes. bolas, tinhas achado que não valia pena, eu não valia a pena. desliguei o filme a meio, fui dobrar meias para passar o tempo, que a ciência de dobrar meias alheia-nos sempre do mundo tal é a magia de fazer duas parecer uma. e depois finalmente um som repetitivo
-eles deviam ter ficado juntos no fim. que raio de filme é este onde ele não espera por ela?
sim, que raio de filme seria?

Amy.

coordenadas de afecto.

quando eu era pequenina queria ter um sítio. via nos filmes as pessoas a terem sítios para pensar, ora fosse em cima de um telhado, ou no jardim de uma casa abandonada que ninguém conhecia. e depois havia sempre uma parte do filme em que mostravam esse sítio a alguém importante:
-és a primeira pessoa que trago aqui.
então um dia fui passear perto da minha casa e encontrei uma figueira que me pareceu suficientemente simpática para a fazer minha. voltei logo e chamei a minha melhor amiga:
-anda, vem ver o meu sítio.
e basicamente chegámos lá, ela viu a figueira e talvez tenha imaginado as brincadeiras que eu nunca tive ali, os confins do pensamento que nunca alcancei; talvez tenha ido arranjar um sítio dela quando chegou a casa, só porque sim. e eu sentia-me um pouco uma espécie de fraude, mas não lhe contei a verdade.

agora penso que se calhar o importante não era o sítio, ou o que eu fazia lá, ou o significado que eu lhe atribuí ou não. talvez ao levarmos alguém connosco para dentro de um segredo nosso lhe estejamos a dizer:
-o meu sítio és tu.

Amy

#17 letter to someone from your childhood

come and land your pillow next to me.

não sei porquê tenho a ideia de que as pessoas só são elas próprias mesmo antes de adormecer. talvez porque se preparam para sonhar, e os sonhos não se conseguem fingir.


Amy


Tenho um problema com pormenores.

Aquela flor que me deste tinha uma pétala partida e deixou cair uma folha no chão quando a estendeste para mim. Vénias de algo que já foi vida e que agora repousa na minha mão, submissa, como se me entregasse a sua vitalidade sem pensar duas vezes. Uma mártir, a secar a pouco e pouco, passando o seu vermelho para a minha face quente e o seu brilho para o meu olhar tremido. Senti-a fechar os olhos calmamente, como se lhe tivesse acabado de contar uma história de embalar.

A princesa tinha sobrevivido, a flor adormecia feliz.

Amy

#24 letter to the person that gave you your favourite memory

Because of you, I forgot the smart ways to lie.

Porque quando eu te olho nos olhos, só me sai
- gosto de ti gosto de ti gosto de ti


mesmo que eu jure que não.

Amy

Let them make a statue of us.

Esquece as coincidências e os apertos descompassados no coração. Esquece o vento que passa, que nos leva e não nos traz. Porque não nos quero desenhados nas nuvens, mas esculpidos em granito. E docemente deixa-te petrificar, tal como os teus olhos petrificam os meus.

Amy

In a simple world.

Queria guardar a intensidade do calor que me fazes sentir quando me tocas. Queria guardar todo este calor, depois pegar nele, enfiá-lo numa máquina qualquer e convertê-lo em palavras, e seria tão fácil como converter ficheiros Word em Pdf.  E depois de ter essas palavras, pegaria nelas com luvas, esterilizadas em água a ferver para não as arrefecer sequer, e dar-tas-ia instantaneamente, para perceberes sem equívocos o que me fazes.

Amy

Desde que te conheci que não tenho medo do escuro.

Eu só gostava de saber
o que é que significa afinal
tu seres diferente de todos.

Amy

One and only.

A diferença entre tu e os outros é que quando estamos todos juntos e só tu te vais embora, eu despeço-me de todos e vou embora também. E quando são os outros que se vão embora, eu despeço-me de todos, mas fico contigo. Simples? 
Amy

#2 letter to your crush

-este é um sítio mesmo giro para engatares miúdas.

Começámos por caminhar lado a lado. O mar via-se por lá, e eu esperava um qualquer comentário divertido da tua parte. Em vez disso, tu aproximaste-te. Ainda estava frio. Ninguém trazia relógio, mas eu lembrava-me das 09.09 que tinha visto no visor do telemóvel, ao deixá-lo em casa. (E se eu me perdesse de ti? Não, nunca de ti. Só contigo.) Então a tua mão tocou na minha, enquanto os nossos passos eram tão lentos por aquele estrado de madeira como se o destino não interessasse mesmo nada. Eu tossi. Queria rir-me, perguntar se aquela era a tua resposta e, ao mesmo tempo, tentar perceber porque é que aquele toque me parecia tão diferente, se já tínhamos dado as mãos tantas vezes. Talvez tu achasses que estavas a ser demasiado. Quando tentaste afastar a tua mão, que ainda só tinha roçado levemente a minha pele, eu agarrei a tua com força, como quem diz
-não te deixo escapar
com o olhar.

Ainda eram só nove da manhã. O caminho adivinhava-se longo àquele passo. Eu respirava fundo o sal, e encostava a cabeça no teu ombro
-também gosto muito de ti.

Amy

Escrito ao som de "If" - House of Heroes

Somos humanos.

Queremos muito, mas sempre com um pé atrás. Na verdade, temos sempre medo de ser demasiado.

Amy

the very first beginning

(tinhas conhecido o meu nome na semana anterior. percebi logo o teu magnetismo, sabia que não havia volta a dar.)

-não largues a minha mão!
gritaste-me, enquanto atravessávamos a estrada debaixo de chuva. quando os carros nos apitavam e eu mal via onde punha os pés, tu apertavas com força a minha mão.  teríamos visto o sol a pôr-se se não fossem as nuvens carregadas a oeste. chegaríamos à tua casa gelados. eu não tanto, porque continuarias a agarrar-me. emprestar-me-ias depois uma toalha para secar o cabelo, dir-me-ias que havia canelones no congelador e que os dvds estavam na segunda gaveta.
-desculpa, estou a empatar-te? tinhas coisas para fazer em casa?
tinha. olharia para os livros molhados de História da Arquitectura Contemporânea que tinha deixado em cima da pequena mesa. era uma dissertação que devia adiantar. depois olharia para ti. haveria de descobrir que o teu sofá era mais confortável do que parecia e que a tua manta azul chegava bem para os dois. depois, sentiria outra vez cada gotícula de chuva a escorrer pelo meu nariz, quando o teu dedo fizesse suavemente o mesmo trajecto e tu pensasses que eu já estava a dormir.

eram já três da manhã e ambos sabíamos que eu já devia ter saído. mas para todos os efeitos eu tinha adormecido, e tu querias-me demasiado ali para me "acordar".
Amy

Línguas de gato, mnham mnham.

Hoje passei naquela rua onde um dia fizemos desaparecer dois pacotes de línguas de gato, a sorrir. Era ainda o tempo dos sóis derretidos e dos olhares que perduravam. Era o tempo das meias palavras que bastavam. Passei lá hoje e vi-nos sentados no chão, a dizer disparates como
-para sempre
entre línguas de gato. Apetecia-me arrancar aquele pacote troçador das minhas próprias mãos, espalhar todas as línguas de gato pelo chão e dizer-me o futuro, para evitar tristezas maiores. Mas depois olhei melhor os meus gestos de felicidade na altura. Dir-me-ia então apenas
-faças o que fizeres, nunca faças madeixas azuis. trust me. ficam-te mal
porque quando meses depois surgiu a típica conversa, eu precisei que as pessoas, ao olhar para mim, reparassem em algo que não fosse as minhas lágrimas interiores.
Quando saí de casa, vi uma mulher a comer línguas de gato, sentada no chão e encostada à parede do meu prédio. Parecia falar sozinha sem mexer os lábios. Arrepiei-me. Noutros dias, ter-lhe-ia perguntado se estava bem. Hoje pus-me a pensar que nós também somos assim. Falamos um com o outro sem mexer os lábios. Pergunto-me se também arrepiaremos as pessoas à nossa volta.
É incrível. O modo como as pessoas são, o modo como se ignoram olhos nos olhos. Nunca sejas assim. Nunca passes por mim sem me ver, mesmo que eu esteja a comer línguas de gato no chão. Pede-me ao menos uma, diz que te importas.
Não tenho fome. Não sei o que estou aqui a fazer. Pedi uma garrafa de água e sentei-me porque estou à tua espera. Seria estúpido ocupar uma mesa se não estivesse a consumir. Mas pareço aquelas fãs malucas que vão para a frente dos palcos. Meu deus, pareço mesmo! Estou à espera que entres cintilante e que arrebates o mundo com o som da tua voz. A única diferença é que dirias
-um galão e uma meia-torrada.
E lá vens tu, de pólo verde escuro (mas que tem a alma de um blusão de cabedal). Sei a tua coreografia de cor. Apoias a mão esquerda no balcão, e a direita rouba dois guardanapos enquanto esperas que te atendam.
-um pacote de línguas de gato.
deste meia volta e saíste. Pelo caminho, deixaste cair uma língua de gato. (Será possível não conseguires abrir uma embalagem como deve ser?) Hoje improvisaste e eu fiquei mesmo confusa. Não sei a letra desta música. Devia seguir-te para descobrir?
-às onze na minha casa. traz línguas de gato.
Quer-me parecer que na minha terra sempre chamámos línguas de gato a morangos e um bom champanhe. Não te atrevas a desmentir.
-desculpa, atrasei-me. Encontrei uma amiga pelo caminho e distraí-me com as horas.
Hum.
-mas trouxe línguas de gato.
Não gosto.
-oh. é que olhei para o bicho engraçado na embalagem e lembrei-me de ti.
How sweet. Mas devias era ter-te lembrado de mim quando o tempo passava e tu estavas distraído com as horas. (E é isto que um dia te vou conseguir dizer, sem vacilar. E depois vou-me levantar, roubar-te uma língua de gato e dizer
-e eu gosto de línguas de gato, parvo. Devias saber e ter discutido comigo.)
Quanto estás triste, é o que te digo, minha língua de gato.
-our world will always fit in a soap bubble, and still fly around.
Safe and free. No one can touch us.

Post comemorativo dos 6 meses do blogue.

If you were a kiss I know I would be a hug.

Eu sou uma caçadora inexperiente de borboletas. Não tenho técnica, nem táctica. Não lhes segredo desejos para elas se deixarem apanhar. Tenho só duas mãos trémulas e desajeitadas que correm em direcção a elas, mas sem sentido. Como alguém que quer tudo de repente. Vejo-as e as minhas mãos querem abarcá-las todas, como se abraçassem o mundo. E quando uma pousa na minha mão sem eu pedir, alegro-me tanto que ela foge porque me mexi demais. Depois tu não, tu consegues tudo, de modo fácil demais. Aproximas-te de mim e já nem é preciso segredares nada, eu deixo-me ficar ali na tua calma e minúcia. Então tenho a sensação de que levas sempre mais de mim, sem eu saber bem como.

Amy

Título emprestado pela Joana'

estou naquela fase.

hoje acordei capaz de encontrar defeitos em tudo menos em ti. e sim, acho que é um defeito meu não encontrar defeitos em ti. e depois há alguém que diz
-já não é defeito, é feitio.

Amy

Combinações.

Everything makes sense in your mind. I'm sure.
I haven't just found your code yet.

Amy

Running.

Quando se anda de bicicleta, quanto mais devagar vamos, mais fácil é cair. Então dou passos rápidos, rápidos. Mas nem sei se estou a ir ao teu encontro, ou se vais acabar por fugir.

Amy
Invisible Woman (55) Alice (49) One more (49) Carolina (37) S. (33) Amy (19) Dee Moon (7)